Em um de seus poemas, nos deixando quase salivando, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade traz suas memórias gustativas contando que guarda na boca “os sabores da guabiroba e do jambo, cor e fragrância do mato, colhidos no pé. Distintos. Araticum, araçá, ananás, bacupari, jatobá… todos reunidos congresso verde no mato, e cada qual separado, cada fruta, cada gosto no sentimento composto das frutas todas do mato que levo na minha boca tal qual me levasse o mato”.

Ao lançar Jardim-Pomar, seu oitavo álbum de estúdio desde que lançou sua carreira solo e o segundo pelo seu selo próprio, Relicário, Nando Reis, nos faz saborear polpa a polpa o fruto de reflexões muito maduras. Vida, morte, amor, finitude, são frutos que, tal qual os lá da memória de Drummond, têm seu sabor próprio em cada composição, mas que mesmo assim trazem seu gosto para “o sentimento composto das frutas todas”.

Foi um sabor que me adoçou os ouvidos e me deixou uns bons minutos paralisada olhando pela janela do Uber quando ouvi pela primeira vez Só posso dizer tocando na Ipanema FM, em Porto Alegre, ano passado. Mais especificamente quando ouvi “protegem as flores, seus espinhos, preferem os cactos que a solidão da noite assista à flor quando se abre, mas eu só posso dizer que eu só fico bem ao seu lado. Eu já tentei com outro alguém, mas não consigo dormir sem seus braços”. Quem me conhece sabe que tenho um cactus que só abre à noite (o que me vale noites à janela à espreita de suas flores).

Eita que a música parecia escrita pra mim! Mas essa é a virtude dos poetas, não é? Escrever de forma com que possamos nos identificar com os seus sentimentos. E, incontestavelmente, Nando Reis é um grande poeta. Pois com Jardim-Pomar é possível saborear do doce ao azedo.  Depende das emoções vivenciadas e das papilas gustativas de cada um.

Pelas fotos feitas pela Carol Siqueira que ilustram essa matéria, e pela entrevista que fizemos no começo dessa semana, deu para sentir que Nando também está sabendo muito bem curtir toda a colheita que Jardim-Pomar está lhe trazendo desde que a turnê começou, em março. 

Uma das melhores definições que já vi sobre o disco foi do João Paulo Carvalho, no Estado de São Paulo. Ele disse, logo que o material foi lançado, ano passado, que Jardim-Pomar é “um inferno astral camuflado de baladas românticas e melodias suaves”, adoraria ter pensado nisso antes! Podia ficar horas aqui escrevendo que no fim das contas a conclusão não seria melhor.

Quisemos aproveitar a vinda de Nando Reis a Santa Maria nesta sexta-feira (detalhes sobre a venda de ingressos no evento oficial no Facebook, vendas na Multissom, no Avenida Tênis Clube e no Blue Ticket)  para a turnê de Jardim-Pomar, e bater um papo com ele. No show, no Avenida Tênis Clube, trazido pela Morphine Produções, ele estará acompanhado de sua banda Os Infernais e vai tocar as músicas do álbum (o primeiro depois de quatro anos sem um álbum de inéditas) mas também as antigas composições que nunca podem faltar em suas apresentações. Preparem-se que a colheita promete ser das boas!

 M de Maria: Quando se ouve “Jardim-Pomar”, se sente muito forte a questão da finitude, da memória afetiva, do mistério. Como você chegou a essas composições, o que influenciou?

Nando Reis: Basicamente, eu componho pra mim. Tenho que saber das minhas próprias exigências. Cada vez que sento para compor, é uma relação profissional, que atende a demandas, e eu quero que alcance um resultado que seja original. As composições são parte do momento que estamos vivendo e nada mais naturais, nesse disco, que o amor e o afeto estarem presentes. 
Sempre que escrevo, mesmo usando fatos ou pessoas da minha vida, acredito que o que era particular se anula, o outro se apropria e a música se torna universal. As composições desse disco, e de todos os meus trabalhos, vão surgindo de acordo com o que vou vivendo, sonhando, pensando.
Para esse disco, não houve exatamente um processo de composição. Eu reuni o que fiz de mais interessante no período de 2012/2016, desde o último disco, o que combinou melhor para ser costurado como repertório do disco.

M: “Se vamos todos morrer/ Então vamos tratar de viver” é de alguma forma uma mensagem para as pessoas em meio a esse período em que elas estão cada vez mais concentradas na tecnologia e cada vez menos conectadas entre si?

Nando: não necessariamente. É uma mensagem para viver o que achar que vale prá sua vida.

M: Como foi voltar a gravar com os Titãs depois de tanto tempo?

Nando: Assim que compus essa música, sabia que ela deveria ser cantada por muitas vozes, femininas e masculinas. Quando chegou o momento da gravação convidei meus amigos titânicos, claro, meus filhos e as cantoras que eu admiro. Foi uma farra gravar com eles, estar com eles em estúdio de novo. Fiquei muito feliz com o resultado. Era uma ideia antiga e a participação deles foi perfeita para essa música.

M: O que distingue, na sua opinião, Jardim-Pomar do seu primeiro álbum independente pela Relicário, o “Sei”?

Nando: A grande diferença de um disco para o outro sempre são as músicas. Cada música que componho, reflete o momento que estou vivendo. E isso é que faz um trabalho diferente do outro. Esse disco é de músicas inéditas, todas elas (salvo Concórdia) nunca haviam sido gravadas. Acredito que seja isso que tenha despertado o interesse das pessoas.

M: Como têm sido a recepção do álbum em vinil e K-7? Você pensa em manter esses formatos nos próximos discos?

Nando: A recepção tem sido muito boa. O material todo que foi usado na concepção desse disco foi todo pensando com cuidado. Eu dei atenção total à parte gráfica, com os materiais que usaríamos, ficou do jeito que eu queria para esse disco. Para um próximo ainda não pensei.

Marilice Daronco

Apaixonada por contar histórias. Sonha em pegar a mochila e sair pelo mundo em busca delas.

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