Primeira metade do século XX, o planeta Terra estava a mergulhar pela segunda vez em uma Guerra Mundial. Nesse período a editora de histórias em quadrinhos, DC Comics, tinha em seu elenco Batman e Superman, dois heróis que ajudaram a moldar o que hoje conhecemos como “o conceito de super heróis modernos”.
 
Foi nessa época, em que homens iam para o front de batalha, que a sociedade capitalista viu as mulheres ingressarem cada vez mais no mercado de trabalho. Sendo assim, aquela ideia de que as mulheres deveriam exercer exclusivamente a função de donas de casas aos poucos implodiu.
 
Além disso, nesse período, revistas em quadrinhos eram um meio influente e a presença de uma personagem que refletisse tais mudanças de paradigma da sociedade era necessária.
Foi então que, em 1941, entrou em cena a Mulher Maravilha, personagem inspirada em conceitos da mitologia grega e que serviu para injetar força e poder feminino em um meio até então dominado por testosterona.


 
A Mulher Maravilha, que é descrita como “bela como Afrodite, forte como Hércules, sábia como Atena e rápida como Hermes”, veio de Themyscira, uma ilha habitada apenas por mulheres guerreiras conhecidas Amazonas.
 
Se na ficção a Mulher Maravilha foi criada por Zeus, na vida real a personagem foi criada por um sujeito chamado William Moulton Marston, que além de atuar como psicólogo foi também o inventor de um aparelho utilizado por policiais em investigações: o famoso “detector de mentiras”.
 
Quando Marston redigiu um artigo afirmando que via nas histórias em quadrinhos um potencial educativo, contrariando muitas teses da época, o editor Max Gaines convocou o psicólogo para ser uma espécie de consultor criativo da sua editora, a National Allied Publications (que mais tarde viria a ser conhecida como DC Comics).

Mulher Maravilha e o seu criador William Marston

 
Marston recebeu de Gaines o sinal verde para criar um super herói diferenciado, que fizesse menos uso da violência e despertasse a esperança nas pessoas. Foi então que a advogada Elizabeth, uma das duas esposas de Marston (sim, o “pai da Mulher Maravilha” vivia uma relação de poligamia) sugeriu para o marido que o novo super herói, na verdade, fosse uma super heroína.
 
Marston abraçou com carinho a ideia da esposa, conferindo para a sua recém nascida personagem as características físicas e psicológicas das suas duas esposas: Elizabeth e Olive.

Vale salientar que, para não chocar a família tradicional, o trio  afirmava que Elizabeth era a esposa legítima e que Olive Byrne era uma cunhada de Marston que estava viúva.
 
É interessante que muitos especulam que alguns conceitos da personagem Mulher Maravilha refletiam aspectos da vida de William Marston. O laço mágico, por exemplo, capaz de imobilizar qualquer pessoa a obrigando dizer a verdade, tinha relação com o fato de que Marston foi o inventor do detector de mentiras. Já para alguns o tal laço mágico simbolizava também um dos fetiches de Marston: manter relações sexuais envolvendo amarras.
 
Suspeitas à parte, o fato é que, com o passar do tempo, a Mulher Maravilha angariou um espaço importante no panteão de heróis da cultura pop. A sua presença é tão marcante que, junto com Batman e Superman, ela constitui a santíssima trindade da DC Comics.


 
Crise nos infinitos filmes
 
Com exceção do sucesso de crítica e público do longa-metragem O Cavaleiro das Trevas (aquele dirigido por Christopher Nolan), os outros filmes do universo compartilhado da DC Comics vivem a receber tomates e ovos pela internet à fora. Homem de Aço (direção de Zack Snyder) até que recebeu críticas mornas, mas Esquadrão Suicida (dirigido por David Ayer) e Batman versus Superman (sob o comando do Zack Snyder) são os sacos de pancadas dos nerds.
 
Por isso, em meio ao caos algumas dúvidas pairavam no ar: “Será que a Mulher Maravilha, dirigida pela quase novata Patty Jenkins, terá o mesmo cruel destino das outras obras da DC? Será também que Mulher Maravilha vai ter forças para salvar o universo compartilhado de filmes da DC?
 
E eis que a guerreira amazonas surge no horizonte

Bem… Enquanto Esquadrão Suicida conta com um roteiro que sai do nada e vai para lugar nenhum, enquanto Homem de Aço e Batman versus Superman se preocupavam em “desconstruir o conceito dos super heróis” por meio de metáforas insossas, referências jogadas a esmo e com a profundidade de uma poça d’água, Mulher Maravilha vai pelo caminho contrário e se preocupa com o básico: contar uma boa história.
A diretora Patty Jenkins narrou uma aventura de origem na medida. A típica “jornada do herói” está ali, utilizando os clichês a seu favor.

Quando Batman e Superman tropeçaram com seus filmes, Diana entrou em cena

 
Na trama vemos Diana (a Mulher Maravilha) vivendo na ilha monárquica Themyscira, quando descobre que “o mundo dos homens” está desmoronando diante de um conflito sangrento (leia-se primeira guerra mundial). Nesse contexto, Diana parte para a aventura não apenas ajudando a humanidade, mas também testando os seus poderes e crescendo muito como personagem.
 
Tendo isso em mãos, o roteiro joga, especialmente nos primeiros atos, algumas piadinhas referenciais feministas bem sacadas, que não soam forçadas e equilibram bem a tensão narrativa. Os coadjuvantes estão muito bem alinhados com as suas funções e o sidekick Steve Trevor, interpretado por Chris Pine, consegue se destacar sem ofuscar a atriz israelense Gal Gadot. Aliás, convenhamos, assim como o Harrison Ford é Indiana Jones, assim como o Robert Downey Junior é o Iron Man, a bela Gal Gadot é, sem dúvida, a Mulher Maravilha.
 
É muito interessante ver Diana ainda inocente, acreditando em ideais de bondade e tentando mostrar para o mundo que a paz deve triunfar. Em mãos inaptas, um conceito desse porte tinha tudo para descambar em um hipponguismo fajuto e sem sal. Mas a condução de Patty Jenkins, aliada a interpretação de Gal Gadot e Chris Pine, torna tudo dinâmico e crível.

Chris Pine e Gal Gadot

 
Ah sim, infelizmente o filme não é perfeito. Os vilões estereotipados não passam uma ameaça real e algumas cenas de ação (especialmente no ato final) deixam evidente as toneladas de CGI, mas aí já é tarde demais e, no saldo geral, o número de acertos supera os deslizes.
 
Além disso, a boa recepção que a Mulher Maravilha está tendo, carregando o combalido universo cinematográfico DC nas costas, faz renascer a esperança de que o vindouro filme da Liga da Justiça também acerte o tom.

Carlos Fernando

Jornalista, ama livros e aprecia contar e ouvir histórias.

Comente

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *