Quando a artista plástica Rosa Helena Teixeira, 55 anos, fala sobre a sua carreira, não é difícil imaginá-la traçar sua história amarrando-a em um gigantesco fio de lã (lã de ovelha para ser mais precisa). Fosse essa história uma fábula, ela começaria mais ou menos assim: “era uma vez uma menina que ficava encantada ao ver o avô comprar e vender lã de ovelha na fazenda onde viviam, no interior de Lavras do Sul”.
Mas como não se trata de nenhum conto de fadas, Rosa Helena não pôde ficar esperando a fada madrinha ou o sapatinho de Cristal aparecerem na porteira. A exemplo de outras mulheres empoderadas, as quais hoje dá forma com suas esculturas em lã, como Frida Kahlo, Amy Winehouse, Madonna, Rosa Helena foi à luta. Formou-se em Artes Plásticas pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp), desenvolveu atividades no Museu de Arte de Porto Alegre, montou seu próprio ateliê.
_ Eu quero mostrar para as pessoas que mesmo com algo que sempre foi considerado tão rudimentar, como a lã de ovelha, se pode criar obras delicadas, realmente esculpidas como se faz uma escultura de argila _ explica Rosa Helena.

Foi observando a mãe, que fazia parte de um grupo de tecelagem em Lavras do Sul, que Rosa Helena começou a ter vontade de usar a lã como matéria prima para a sua arte. Mas enquanto aquele grupo de mulheres da zona rural usava a lã para fazer palas e chergões (usado por baixo da cela do cavalo) como uma fonte alternativa de renda, os olhos da artista plástica brilhavam mesmo era pensando em como a lã oferecia infinitas possibilidades para seus trabalhos artísticos.
Assim, surgiram os primeiros colares e demais bijuterias. Depois, vieram as bolsas e, finalmente, as bonecas. Os trabalhos de Rosa Helena são comercializados em Santa Maria no Brique da Vila Belga. Identificá-los em meio à dezena de barraquinhas é muito fácil. Isso porque é quase impossível passar pelo estande e não se encantar com as bonecas feitas pela artista.

As esculturas em lã têm preços que variam de R$ 15 a R$ 80. Uma das mais caras é a Vênus de Milo. São bonecas com expressões corporais, ricas em movimento, como se tivessem vida própria e estivessem interligadas por meio de um fio, um fio de lã como aquele da história da vida de Rosa Helena.

_ Uso a técnica da feltragem, que com os pastores, na Ásia, há mais de 6 mil anos. Eles colocavam a lã nos sapatos, para aquecer os pés. Depois, perceberam que ao fazer isso, com o calor e a pisada, ela virava um tecido e começaram a usá-lo para fazer roupas. Para dar as cores, uso tingimento natural, com beterraba, carqueja, feijão, algumas ervas e temperos _ conta Rosa Helena.
Sabe aquele fio de lã que falamos lá no início desse texto que parecia costurar cada ponto da história de vida de Rosa Helena? Pois puxamos ele aqui de novo para concluir essa matéria. Rosa usa esse fio não para um ponto final, mas para um laço, um laço que sai de suas mãos e une sua paixão pela arte, pela lã, pela tradição das artesãs. Um laço que tem uma ponta lá em Lavras do Sul e, agora, com a participação de Rosa Helena no Brique, tem a outra ponta aqui em Santa Maria. Um laço cheio de movimento, bem como a artista tanto gosta.

Marilice Daronco

Apaixonada por contar histórias. Sonha em pegar a mochila e sair pelo mundo em busca delas.

5 comentários

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Adorei a matéria!!! Além de estar muito bem escrito, está super bem representado por duas mulheres empoderadas!
Parabéns e sucesso à vocês.

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LINDA matéria! Parabéns Marilice! Parabéns Rosa Helena!!!

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Marilice Daronco, amei a matéria, parabéns por esta sensível habilidade em tecer palavras e espalhar sonhos unindo a emoção de diferentes fazeres de mulheres pelo mundo!❤

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Parabéns pra Rosa Helena, lindo trabalho e muito original!

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Estou para ver artista tão criativa como a Rosa. Tudo o que ela faz encanta.

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