Existe uma expressão italiana que guarda um mundo de força em si: “piano, piano, se va lontano”. Ela não tem absolutamente nada a ver com música, ainda que signifique exatamente o que o Martinho da vila diz naquela sua canção “é devagar, é devagar, devagarinho… Devagarinho é que a gente chega lá”. Ontem, lembrei muito dela quando um outro tipo de piano, o instrumento musical, virou personagem principal de um show, ou melhor, de um espetáculo no Theatro Treze de Maio. Sejamos justos, não era um piano qualquer. O “Maestro” como foi apelidado, tem nome e sobrenome, Muller-Schiedmayer, data de nascimento, 1927, e nacionalidade: é um alemão nascido em Berlim. Minha impressão é que quem foi assistir a Concerto para o Conserto saiu meio desconsertado (por ótimos motivos).

Não é novidade para ninguém na cidade que quando músicos como Pirisca Grecco, Gustavo Garoto, Pedro Ribas, Lutiano Nascimento, Oristela Alves, Adriano Zuli, Sandro de Paula, Vagner Uberti Pinto, Erick Corrêa Castro, resolvem dar show, eles dão show. Mas o encontro marcado para a última quarta tinha alguns pontos especiais. O primeiro, é claro, era ver esse pessoal todo reunido, cantando clássicos musicais das últimas décadas e reinventando de Milton Nascimento a Gabriel, o Pensador (o que foi a interpretação de Maresia, pelo amor de Deus, que coisa mais linda!), passando por Barbosa Lessa, Pixinguinha, Legião Urbana e outros grandes nomes.

Mas o grande personagem da noite tinha um sorriso de 88 teclas. E não era para menos, afinal, o grande objetivo de Concerto para  o conserto foi agradecer a todos que colaboraram para a restauração do piano desde que ele foi trazido de Uruguaiana (onde ficou cerca de sete décadas sobre os cuidados da mesma família). Para poder afinar e restaurar o instrumento, Garoto abriu as portas da sua cada para três saraus, mas, bem mais do que isso, muita gente abriu o coração, e a carteira até que fossem angariados os R$ 4 mil necessários.

Não posso terminar esse texto sem falar de um dos pontos mais poéticos do show. O cenário foi desenhado ao vivo por Jorge Gularte. Ele deu vida à história do “Maestro” desde seu nascimento em Berlim. Coisa linda de se ver (e sentir).

No fim do espetáculo, Pirisca passou o chapéu para quem quisesse continuar ajudando afinal, manter um piano de 90 anos não é tarefa fácil (muito menos barata). Ele passou o chapéu, nós, o público que lotou o Treze de Maio, literalmente tirou o chapéu, para o Maestro, para a sua linda história e, principalmente, para os músicos que nos fizeram sair descosertadamente feliz desse encontro.

* As fotografias que acompanham esse texto são de Dartanhan Baldez Figueiredo

Marilice Daronco

Apaixonada por contar histórias. Sonha em pegar a mochila e sair pelo mundo em busca delas.

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