Se todos os escritores tecem a sua mitologia própria, é possível afirmar que a Torre Negra é onde converge boa parte do que o criativo cérebro do Stephen King imaginou. É para lá, na Torre Negra, que vão personagens como o padre Calhahan (aquele mesmo, que aparece no livro A Hora do Vampiro), bem como o maléfico Randall Flagg (vilão que aparece em A Dança da Morte, Os Olhos do Dragão, entre outros).

É na Torre Negra que o leitor vai encontrar pitadas de referências a outros livros do autor, tais como Carrie, O Talismã, A Casa Negra, Rose Madder, Buick 8 e por aí vai.
É possível dizer que a Torre Negra nasceu junto com os primeiros livros do escritor, na década de setenta, entre um rascunho e outro de Carrie e outras das suas obras iniciais.

Ao todo, a Torre Negra compreende sete livros (e mais um spin-off) que o escritor publicou ao longo de toda a sua carreira.

Mas sobre quem ou o quê fala a tal Torre Negra?
Talvez a mente juvenil do Stephen King, em plena década de setenta, deve ter se impressionado com aventuras sobre cavaleiros medievais e filmes western, pois a saga é exatamente isso, uma versão bang-bang das grandes jornadas épicas, porém basta substituir o guerreiro medieval por um protagonista pistoleiro que é declaradamente inspirado no personagem que Clint Eastwood imortalizou nos filmes do Sergio Leone.

E para completar o tempero, todos esses elementos ocorrem em meio a situações que envolvem magia e misticismo. Vale lembrar também que o poema Childe Roland à Torre Negra chegou, publicado no século XIX por Robert Browning, serviu também de inspiração para o Stephen King.

Na saga criada pelo autor norte-americano, um pistoleiro chamado Roland Deschain, que movido por uma obsessão doentia, é capaz de tudo para chegar a tal Torre Negra, um local de poderes místicos que sustenta a existência do universo. No decorrer da sua busca, Roland também deve encontrar um sujeito misterioso que ele chama de Homem de Preto.

A Torre Negra já foi adaptada em histórias em quadrinhos pela Marvel e está prestes a estrear nos cinemas.

O Pistoleiro


É o primeiro livro da saga, que começou a ser escrito na década de setenta quando o autor contava com 19 anos de idade e foi publicado, integralmente, em 1982. A trama inicia com a célebre frase O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.
Confesso que esse, na minha opinião, é um dos piores livros de toda a saga. A narrativa do King aqui ainda é muito truncada, dotada de um excesso de descrições que mais atrapalham do que servem para a imersão na história. No entanto, há momentos isolados interessantes, especialmente quando Roland, o pistoleiro, encontra o garoto Jake Chambers.

A Escolha dos Três


Publicado nos EUA em 1987, essa segunda parte da saga é muito superior a primeira. Nesse livro, Roland encontra em uma praia portas que levam para outras realidades, permitindo a ele recrutar dois novos personagens importantes: Eddie Dean (um rapaz viciado em heroína) e Odetta Holmes (uma cadeirante que sofre de dupla personalidade).

Terras Devastadas


Publicado nos EUA em 1991, é tão bom quanto o interior. Aqui o escritor está em um dos seus melhores momentos, conseguindo equilibrar tensão e desenvolvimento de personagens na medida certa. É nesse livro que o garoto Jake Chambers retorna.

Mago e Vidro


Publicado nos EUA em 1997, esse para mim é um dos melhores livros da saga. É nesse volume que Roland narra para os seus companheiros de viagem (e consequentemente também para os leitores, óbvio) a razão da sua obsessão pela Torre Negra.
A narrativa de Roland corresponde a quase 90% do livro e trata-se de uma fascinante história de cowboy, com direito a duelos, romances e um desfecho trágico.

Lobos de Callah


Publicado em 2003 nos EUA, é tão bom quanto o interior. Esse volume é um dos que contam com mais passagens de ação, inclusive com referências a cultura pop, que vão de Harry Potter, um certo vilão da Marvel a Sete Homens e um Destino. Além disso, a trama ganha contornos mais complexos com a aparição do padre Callahan, personagem de outro livro do King, A Hora do Vampiro.

A Canção de Susannah


Publicado em 2004 nos EUA, é muito inferior aos dois anteriores. Aqui King cria soluções apressadas para a jornada. Nem mesmo a brincadeirinha metalinguística (sim, o próprio autor aparece como um personagem) coloca a narrativa nos eixos.

A Torre Negra


Publicado em 2007 nos EUA. Apesar dos deslizes do anterior, o último volume da saga é um bom desfecho para a jornada de Roland, que finalmente se despede dos seus companheiros e encontra o seu santo Graal pessoal, a famigerada Torre Negra. Ao entrar nela, Roland (e nós leitores também) descobrimos o porquê que a vida é considerada cheia de ciclos.

O Vento pela fechadura


Publicado em 2012 nos EUA, é um spin-off da saga, onde Roland narra para os seus companheiros de viagem uma fábula. É um livro curto e divertido, com uma história dentro de uma outra história e que acrescenta ainda mais detalhes na fascinante mitologia criada por Stephen King.

Por ser uma obra que levou praticamente uma vida inteira para ser escrita, a Torre Negra traz o que há do pior e do melhor do celebrado autor norte-americano, unindo em um mesmo universo muito do que ele já criou em outros livros.

Por isso, existe uma certa curiosidade em relação a essa vindoura adaptação cinematográfica. A julgar pela extensão da obra e pelas características da mídia cinematográfica, é óbvio que muita coisa vai ficar de fora.

Mas enfim, a essência de tudo, que é uma jornada também sobre autoconhecimento, espero eu que seja mantida.

Carlos Fernando

Jornalista, ama livros e aprecia contar e ouvir histórias.

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